Foto: Vlademir Alexandre

Desde a Seleção de 82 que não se via uma derrota tão honrosa. A votação heroica de Mineiro, sem ajuda do PT nacional, com pouca grana, saindo de trás e boicotado pelas pesquisas e imprensa transformou o Deputado no grande vencedor simbólico dessas eleições. Se vivo fosse, Cláudio Coutinho o definiria como o “Campeão Moral”, alguém capaz de surpreender a todos mesmo contra todas as adversidades.

É certo que a onda que se ergueu no último domingo assustou os donos do poder local e os velhos caciques tão habituados a repartirem entre si as benesses que a cidade sempre lhes proporcionou. De repente, não mais que de repente, viram-se acuados, como a enfrentar uma ressaca braba do Atlântico contra o calçadão de Ponta Negra. A escolha espontânea e consciente de jovens, artistas e uma ampla camada da população em torno do nome do candidato petista gerou uma mobilização que abalou as estruturas dos dois candidatos que disputarão o segundo turno. Carlos Eduardo não havia se preparado para enfrentar Mineiro numa disputa mano a mano e Hermano Morais deve ter ficado bastante apreensivo com a real possibilidade de ficar de fora precocemente da peleja.

O mais estranho é notar como a imprensa local ignorou o crescimento do candidato, divulgando pesquisas de opinião claramente dirigidas por contratantes ocultos sem nunca contestá-las, questioná-las ou analisá-las criticamente. Esse fato coloca em xeque a credibilidade de nossos colegas jornalistas, uma vez que todos, salvo alguma exceção que possa ter me passado despercebida, mostraram-se incapazes de ler um cenário que estava bem diante de seus narizes. Havia um elefante na sala e ninguém reparou. Nem vou chover no molhado falando das empresas que fazem pesquisas pois, segundo levantamentos que eu próprio realizei comigo mesmo, caíram bastante no índice geral de confiabilidade. Na boa, é mais fácil crer que o Adriano vai ser melhor jogador do mundo ano que vem do que no resultado de alguma amostragem desses institutos (sic) locais. Cogito, inclusive, abrir o DataChute pra concorrer com eles.

Não se sabe se as cúpulas das campanhas dos dois candidatos (Carlos e Hermano) detectaram a curva ascendente petista ou se a ameaça passou despercebida por seus radares. É possível que elas tenham notado o perigo e tentado mascará-lo mediante a contratação de números mais amigáveis a seus clientes. Entretanto, diante da soberba das velhas lideranças, duvido que eles hajam concluído as possíveis implicações futuras da expressiva votação do terceiro colocado. O que ocorreu domingo passado foi apenas mais um capítulo de uma história que vem se desenrolando desde 2011. O câncer Micarla de Sousa fez vir à tona uma nova turma de moças e rapazes inconformados, uma garotada sem medo de enfrentar os empresários do SETURN e o cartel dos combustíveis, disposta a ocupar a Câmara dos Vereadores e de exigir a saída da pior prefeita que esta cidade já teve. Enfim, há toda uma geração de líderes em potencial, capazes de convencer os pais conservadores, por meio de argumentos potencializados pelos laços afetivos a mudarem de ideia… e de voto.

Esses jovens encontraram em artistas e formadores de opinião como Simona Talma, Luiz Gadelha, Titina Medeiros, Quitéria Kelly, Ânderson Foca (que não declarou o voto, mas não cansava de elogiar Mineiro no Twitter), Diogo Guanabara, Rodrigo Bico, os politizados redatores da Carta Potiguar, Henrique Fontes e o pessoal da Casa da Ribeira, Fernando Yamamoto e a trupe do Clowns de Shakespeare referências positivas que abalizavam suas posições. As redes sociais, território invisível para os agentes do atraso, serviram de fio condutor para irradiar a tendência que todos os outros meios preferiam não enxergar.

Alguns poderão dizer, ao melhor estilo superficial e maniqueísta, que toda essa animação não adianta de nada, uma vez que, no fim das contas, o candidato perdeu. Entretanto, contextualizando o momento atual, uma derrota por tão pouco demonstra uma possibilidade real de vitórias futuras. Os meninos e meninas que param o trânsito e criam “jogos da velha” virtuais com grande potencial viral devem ter percebido que também são capazes de mudar os rumos da cidade através do voto e das mesmíssimas ferramentas que usaram em protestos recentes. Não é preciso votar em quem os operadores do poderio econômico local mandam. Pertencer a uma família oligárquica não será mais salvo conduto para ser alçado aos cargos mais importantes. O valor simbólico do pleito é enorme. Pode ser que os grupos que governam hoje estejam vivendo uma sobrevida, um ocaso de seu protagonismo. A não eleição de vários dos vereadores mais próximos a Micarla e o fato de que apenas 3 condenados pela Operação Impacto terão mandatos em vigor a partir de 1º de janeiro é outro indicador positivo de que as coisas estão virando pouco a pouco.

Espero que a mudança de atitude da população possa conduzir nossa capital a um futuro promissor, mais humano, justo e pautado pela melhoria de vida da MAIORIA da população. Precisamos mudar! Basta olhar em volta para perceber que o natalense médio é individualista, egoísta e extremamente interesseiro. Nós jogamos lixo na rua, não paramos em faixa de pedestre, furamos fila e tentamos levar vantagem em tudo. A nossa suposta amabilidade e simpatia não passam de um misto de docilidade e preguiça disfarçadas. A reação da juventude, tomando para si uma causa que deveria ser de toda a cidade é bastante animadora, projetando um amanhã diferente do momento presente.

Espero que o próximo prefeito faça um bom governo. Até porque, agora ele terá um adversário em potencial fungando no cangote. Se mandar mal poderá provocar o crescimento da onda vermelha e a inversão do jogo do poder local poderá ser irreversível. Amém!

Carlos Fialho

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