*Por Juliano Siqueira

 

                  Não é o que estão pensando. Não vou perder tempo, nem espaço (para mim tão raro), falando das traições paroquiais. Por sinal, coisa nada original na crônica política do RN e de Natal. E nem por isso deixam de ser algo deplorável.

              Quero falar de uma outra coisa: fidelidade partidária. Por enquanto, uma abertura ao debate. Essa é uma questão inadiável. Mas, que fidelidade? Aquela restrita aos filiados e eleitos frente às cúpulas partidárias? Não. Queremos discutir o fundamental: a fidelidade dos partidos aos seus respectivos programas. Tudo começa aqui, ou então é pura balela. O mais é simples consequência.

              O País necessita de reforma política? Claro que sim. De que tipo? Na resposta, os campos (governo e oposição) se dividem.

              Consideramos necessária e urgente reforma política que conduza à mais democracia, ao seu aprofundamento. Com isso, logicamente, tornar-se-à possível avançar no sistema eleitoral e no sistema partidário.

              Este é o tipo de reforma que estamos a propor: a que torne realidade consolidada a promessa formal-democrática inscrita na Constituição de 1988. Não o intento conservador-reacionário que, pela via golpista do casuísmo, quer fazer com que voltemos aos esquemas oligárquicos e excludentes do Império, da Velha República e, mais recentemente, do regime militar.

              Na nossa proposta de reforma, no seu conteúdo progressista, está expresso: coibição da influência do poder econômico (leia-se corrupção e manipulação); democratização do uso dos meios de comunicação; normatização republicana das campanhas, pelo judiciário, transparência e controle social.

              Nesse contexto, de moralidade e isonomia, sobre recursos, gastos e enfrentamento do monopólio midiático, muito tem que ser feito. O financiamento privado transforma candidatos e “partidos da ordem” em objetos patrocinados por bancos e multinacionais, como João Saldanha previu para os clubes de futebol, nos anos setenta, como ocorre com a fórmula 1, nos dias de hoje. Não teremos eleição, mas disputa de marcas estranhas. Tudo, devidamente, consagrado pelos impérios da mídia eletrônica e da imprensa, da informação privatizada, da “liberdade de empresa” e extorsão.

               Tal ocorre em meio ao cinismo máximo. Não há a menor intenção de vergonha. Karl Marx, século e meio atrás, dizia que a vergonha já é uma quase revolução, um grande passo ético, porque é uma espécie de cólera voltada contra si mesmo. Quem espera essa atitude das chamadas elites do País?

              Voltemos à questão inicial: a fidelidade doutrinária. Quanto vale um programa de partido, na prática política brasileira? Nada. Com exceções históricas e raras. A doutrina social-democrata submete-se a alianças surrealistas: PTB, PV, PMDB, PRB juntam-se ao DEM, PSDB, PP, PR e , desconhecendo-se o paradeiro do espólio dos falecidos PPS e PMN, no essencial, todos dançam conforme a música fúnebre do neoliberalismo, na recente persona conspiratório-putchista. Refiro-me ao Rio Grande do Norte, com principalidade. Mesmo sabendo que o espectro nacional não carrega alentos, ao contrário, está eivado de ciladas e medrando ilusões.

                Assim como os eleitos trocam de legenda, os partidos abandonam seus programas. Os partidos têm que ser fiéis aos seus programas; no entanto, aqui, eles são fiéis ao poder, a governos. O que podem exigir dos filiados, com ou sem mandato?   

        No caso do PT, sem apelos ao infantilismo baluartista, vigora a observância do programa, do manifesto, dos estatutos. É visível que nós não somos de aluguel. Talvez, por isso, mais uma vez, queiram nos isolar.

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