*Por Juliano Siqueira

                  Há pouco, no auge da expansão agressiva e multifrontal da barbárie contemporânea – o neoliberalismo-, discutir a existência ou simples posturas de direita e de esquerda, mesmo nos limites do conceitual, era, nos meios pensantes que consumaram sua opção conformista, como exumar cadáveres. Pouco tempo passou. A luta de classes, em formas variadas de expressão, explodiu no interior nada homogêneo do mundo “íntegro e unipolar”. A questão não podia continuar represada. Com muitas voltas, retorna-se ao óbvio.

                    A tradição do colonialismo cultural, no entanto, mais uma vez se impõe. Um velho e coerente pensador liberal, Bobbio, ao seu modo relativista e formal, num livro singelo, Destra e Sinistra, tem o mérito de reintroduzir as luzes da razão nos corredores sem saída e nas salas das lamparinas, com a autoridade hoje conferida aos italianos no campo da investigação política – o que em parte, é merecido-, sem ares de quem está a descobrir novidades. Agora é possível falar, discutir, filiar-se à esquerda ou à direita, sem temor paleontológico.

                     Há uma moldura que ainda asfixia o quadro do debate, com estreitas fronteiras fundadas nas negações do socialismo e na rendição frente ao projeto global do capitalismo, na feição neoliberal. Em contrapartida, no seu interior, movimentam-se homens e idéias, abre-se a perspectiva de um novo horizonte teórico e prático, a partir do fracasso econômico-social e da falência político-ideológico da etapa atual de denominação capital-imperialista.

                    É fato que, na maré alta que quase nos afogou a todos, uma das marcas da embromação sobrevivente foi a mudança de espectro e nome. Rasgou-se o que era incômodo. Também é verdade que, em princípio, cercada e isolada, ergueu-se a resistência ética, política e ideológica do socialismo, como crítica e como programa.

                  A esquerda, sem subterfúrgios, clama e proclama sua condição. Seria paradoxo que a esquerda se negasse como movimento, organização, posição política. Assim fazendo, não seria nada. Nem o rótulo. Mas não basta proclamar-se esquerda, advertia Lênin há oitenta anos. É necessário ser, social e historicamente, reconhecido como tal. Isso vai muito além da frase. É um desafio concreto.

                 A direita é real como a burguesia, o lucro, o capital. Mas se esconde. Nem um dos seus partidos assume o conteúdo de suas proposições efetivas e evidentes. Com letreiros enganosos, onde misturam palavras subvertidas no seu sentido e significado (social, nacional, democrático, popular cristão), apresentam-se às massas como baluartes do que, em essência, reduzem, desfiguram e destroem. A máscara política da direita é puro estelionato e a comprovação de que, no terreno das ideias, a burguesia, carente de formulações galvanizadores da sociedade, apela à mistificação e ao fetichismo. É o que se verifica há pelo menos um século e meio. Suas siglas resumem-se ao cifrão.

                    Não adianta especular com o impossível. O capital, esse camaleão astuto e medroso, não mostra sua verdadeira face exceto na segurança dos labirintos do seu próprio poder. Dessa maneira, segue a enganar e explorar, ao mesmo tempo que fornece a camuflagem dos cooptados. Monstro que se multiplica em tentáculos e aparenta ter mil vidas. Podemos viver cem anos, o capitalismo outros tantos, mas jamais veremos a legenda ‘Partido do Capital’. Muito menos a direita, seus corifeus e epígonos, gritando “somos a direita”. A direita não tem canções, poesia, mártires, heróis. É um deserto humano: o realismo capitalista.

                     A injustiça e a exclusão; o atraso e a miséria; a intolerância e o obscurantismo; a repressão e a morte da liberdade; a degradação humana e o fascismo. Eis a direita. Somoza, Duvalier e Pinochet são a cara da direita. A verdade da direita é mais que ideológica, política, ética. É ontológica. A vergonha da direita é ser direita.

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