Por Juliano Siqueira

      Semanas, meses, passados e o silêncio da cumplicidade. Ou da ignorância?

     Espero, com certeza, em vão, um texto, uma palavra, um depoimento que resgate a verdade histórica. Simples e pobre espera, cujo destino, se calar, seria a conciliação entre os iguais da Casa Grande.

     Não posso mais guardar-me em atitudes de falsa convivência (ou conveniência). É preciso reabrir a discussão e colocar a confusão em seu lugar devido. Grito da Senzala.

     Não temos o direito de por a mordaça, frente às falácias da autoproclamada e aclamada aristocracia intelectual da paróquia. Basta de falsificação e apologética.

     Leio e releio a edição de um jornal de Natal, em suas páginas, o espaço “Ponto de Vista”. E  uma legenda: “A pobreza da Filosofia”.

     Na verdade, o artigo merece o título. Por isso, em seu conteúdo, quanta coisa está fora do real.

     Em primeiro lugar, K. Marx nunca escreveu nada chamado de “A pobreza da Filosofia”.

     Seu livro clássico, no título, não tinha artigo, menos ainda referia-se à pobreza. É, exata e tão somente, “Miséria da Filosofia” (resposta à “Filosofia da Miséria” de Pierre Joseph Proudhon), Editorial Grijalbo Ltda, edição em língua portuguesa, São Paulo, 1976.

     Como pode alguém falar de K. Marx, sem nunca o ter lido?

     “Miséria da Filosofia” versa, fundamental, e quase que exclusivamente, sobre Economia Política e Ciência Política.

     Não é um tratado de filosofia, menos ainda apologia do materialismo dialético e do ateísmo.

    Também, não é o primeiro livro de K. Marx..

     Sua primeira obra, datada de 15 de abril de 1841, intitula-se “Diferença entre as Filosofias da Natureza em Demócrito e Epicuro”. Por sinal, sua tese de doutorado e um elogio do materialismo filosófico e do ateísmo, dos pensadores naturalistas da Grécia antiga.

  “Miséria da Filosofia”, foi escrito entre os anos de 1846 e 1847.

   Em segundo lugar, K. Marx, filho de judeus convertidos, jamais penetrou as searas da teologia.

   Frente à “blasfêmia”, pergunto: de onde vem tal desinformação?

   Existem dezenas de biografias de K. Marx. Basta, sem heranças de censura, procurá-las.

   Outra coisa. Apenas para elucidar. “O Capital” (Crítica da Economia Política) constitui-se numa obra de 4 (quatro) livros e 09 (nove) volumes. O último livro, em (04) quatro tomos (“Teorias da Mais-Valia, Crítica do Pensamento Econômico”) foi organizado por F. Engels e concluído por K. Kautsky (1895). O Livro I (“O Processo de Produção do Capital”- 1867) foi o único editado durante a vida de Marx. O Livro II (“ O Processo de Circulação do Capital” – 1885, (02) dois tomos, organizado e editado por Engels). O Livro III (“O Processo Global da Produção Capitalista” – 1894, (02) dois tomos, igualmente, graças ao labor de Engels).

    Depois de escrever sua tese de doutorado, e antes de concluir “Miséria da Filosofia”, K. Marx produziu os “Manuscritos Econômico-Filosóficos” (1844), “Crítica da Filosofia do Direito de Hengel” (1845), “A Questão Judaica” (1846), obras capitais para quem deseja penetrar, cientificamente, a filosofia, a economia, a filosofia do Direito e a concepção teórica do Estado.

    Em seguida à “Miséria da Filosofia”, incluindo-se “O Capital”, e até sua morte, em 14 de março de 1883, K. Marx construiu uma bibliografia, vasta em quantidade e rica em qualidade (“A Sagrada família”, “As Lutas de Classes na França”, “A Ideologia Alemã”, “O Dezoito Brumário…”, “O Manifesto Comunista”, entre muitos outros).

    Merece destaque uma obra fundamental –  “Grundrisse” (1857 – 1858), (03) três Manuscritos Econômicos, com o título original de “Grundrisse der Kritik der Politshen Okonomie” (“Elementos Fundamentais para a Crítica da Economia Política”). Este texto, com publicação do Instituto de Marxismo – Leninismo, Moscou, veio a lume em 1941.

    Não estou a fazer culto ou religião de K. Marx, mas, unicamente, chamando à veracidade, quando não marxistas de profissão, caídos em pecado, o invocam para negá-lo.

    É bom que se faça uma leitura, rápida que seja, nos anais da Universidade de Bona. E descobriremos, sem dificuldades, que K. Marx, jovem ou velho, era muito mais que um “sociólogo”. Era um gênio. Da filosofia, da história, das ciências sociais.

     Agora, voltemos à diferença entre “pobreza” e “miséria”.

     Quando K. Marx respondeu à Proudhon, estava a condenar o conhecimento que ele considerava miserável, falso, enganoso. O que é muito diferente de pobre, necessitado ou carente.

      O primeiro é, ideologicamente, irrecuperável; o segundo precisa de amparo. O primeiro está abaixo da linha da pobreza, como a matéria em foco. Ao longo do quase panegírico, uma afirmação salta aos olhos, bizarra, sem paralelos, de uma extrema petulância.

       “Logo, Karl Marx acreditava em Deus”. Santa conclusão…! Argumento? Basta um “logo” salvador e, pronto, temos a prova ou a pedra filosofal.

        Nem Deus, nem Marx precisam deste tipo de violência teórica. Cada um no seu lugar.

      Por fim, frente a tantas distorções, eu humilde e tranquilamente marxista e ateu, quero dizer que ninguém deve ser “suficientemente burro” (frase central do articulista original) para falar, ou escrever, sobre o que não sabe. Nem conhece.

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