Por Juliano Siqueira

       

  A humanidade, no tortuoso curso de sua história, tem conhecido exemplos intermitentes de paz e liberdade. As sociedades históricas estão marcadas pelo egoísmo e o terror, em níveis particulares e coletivos. É tão grande a miséria acumulada da condição humana que, por vezes e não poucas, somos assaltados pela tentação do pessimismo. No entanto, as lições de resistência e dignidade existem e insistem como um convite renovado à esperança, como uma afirmação da possibilidade de um mundo solidário, como “perspectiva do homem”, na otimista expressão e sonho de Garaudy. Desde a opção trágica de Sócrates, repetida em todas as formas de inquisição, seja com Giordano Bruno ou com Vladimir Maiakovsky, restam o legado dos reprimidos e a vergonha dos repressores.

O poeta da Revolução de Outubro fez do próprio peito alvo, vítima da inveja e do cerco feroz com que conservadores e burocratas o censuravam. Ele, que com tantos tomos bolcheviques, pecava por usar uma camisa amarela.

O caso de Maiakovsky é emblemático. Criador genial, deixa tudo de pessoal para fazer cartazes para a Revolução. Mas, por temperamento e irreverência, é impedido, pelo arrivista Bogdanov (que Lênin triturou em “Materialismo e Empirocriticismo”), convertido depois de 1917, a ingressar na União dos Escritores Proletários,

             Gorca e Neruda proclamaram que o fascismo não tem poemas nem canções. A inteligência sempre foi alvo da violência obscurantista. É difícil, quase impossível, imaginar um gênio como Lukács ver-se obrigado à submissão frente ao formulismo  oficializado na dogmática zhdanovista do “realismo socialista”. Imposição teórica que nosso Craciliano Ramos recusava-se a comentar. Essa digressão estético-filosófica não pode, sob nenhum argumento, nos afastar da seara política – palco concentrado da luta de classes e espaço desgraçadamente preferencial do exercício da intolerância, inclusive ética e étnica. No posterior à Revolução Francesa, no centro das lutas republicanas e democráticas do século dezenove, na antessala das primeiras insurreições proletárias, na senda inaugural do Socialismo, sob a luz projetada ao futuro do “Manifesto”, Jules Michelet escrevia: “Se os amigos da liberdade vêem seu número decrescer é porque eles próprios o quiseram. Vários deles formaram seu sistema de expurgo progressivo, de minuciosa ortodoxia, que visa a fazer de um partido uma seita, uma pequena igreja. Rejeita-se isso e aquilo; há abundância de restrições, distinções, exclusões. Descobre-se a cada dia alguma nova heresia”.  Contra o dogmatismo e o espirito de seita, a consciência crítica se levanta. Não como um pleito simplório e mesquinho de afirmação solitária da individualização da liberdade. Mas, muito ao contrário, como negação radical dos inspetores da liberdade e retomada comprometida do conflito que percorre as páginas todas da obra clássica de Victor Hugo. Javet existiu e existe. Para a tristeza dos algozes, Jean Valjean também.

              Contudo, uma diferença se impõe compreender: é aquela que separa e distingue “miseráveis” de miseráveis. Uns humilhados e ofendidos; outros filhos do poder espúrio e gendarme, seja em que dimensão for. Defender a liberdade, para nós brasileiro, tem um caráter de ofício secular. Nessa causa não cabe o culto mesquinho da promoção da queda em desgraça de grupos ou seres humanos. Essa é uma tarefa maior, um desafio de grandeza e a coragem de resgatar a fraternidade como princípio da convivência entre homens livres e iguais em direitos e deveres. E não somente perante a lei.

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