Por Juliano Siqueira

A luta de classes, os movimentos revolucionários, o curso das revoluções vitoriosas, a contra-revolução, devoram convicções e homens, desmantelam organizações e modelos, deprimem e violentam, transformam pessoas e países.

     Por vezes, frente à crise mundial originada da debacle do sistema socialista, até então edificado – jamais do socialismo como negação do capitalismo – deparamo-nos com antigos militantes vociferando contra o (seu próprio) passado, acelerando o processo de reciclagem, renovando-se na mais transformista maquiagem, abrindo-se sem limites à espera da cooptação. Falam do “novo”, insistem num vago futuro, pregam a “reinvenção da utopia”, na trilha da metafísica. E colaboram com a nova ordem. O fim  da URSS e anexação capitalista dos países do leste europeu, foi a mais troiana tragédia política do século xx.

    Agnósticos, nihilistas, irracionalistas, pós-modernos, sem princípios. Assim, ocupam o espaço do pensar, invadem as academias e, como uma peste, espalham a epidemia da capitulação por onde passam. Tudo isso em nome da democracia. Do mais radical democratismo, que, inconsequentes e esotéricos, terminam por negar nas provações da vida.

    Combatem as “velhas formas”, ainda que estejam perdidos, sem fio nem prumo, confundindo “ondas” com originalidade.

     Certos corifeus modernosos e sua obras recolhidas, com base em relações medievais de mútuo favorecimento, arranjam-se em inútil hegemonia de grupo, cuja existência é tão longa quanto a duração dos mandatos.

     Mesmo assim não conseguem articular nada, expandir seus discursos, fazer passar suas vozes.

     São as sereias excluídas da mitologia. Contudo, histéricos cultores da auto-estima, vivem embevecidos com o ridículo das árias atônicas de suas operetas bufas e com seus cantos de coros de gralhas.

     São, qual Aristarco, alicerces e pilares da vida acadêmica pura (e hipócrita). Zombam dos militantes e ativistas das lutas populares e sindicais; absenteístas e filisteus, acham-se no direito de, a distância, avaliar as derrotas para as quais contribuíram. Tentam racionalizar seus complexos de pigmeu falando um latinório para “pobres ignorantes” e olham com desdém a “turba das assembleias”: massa de manobra de agitadores desocupados e irresponsáveis.

       São intolerantes, como outros antes o foram, com esse pessoal ‘superado” que ainda fala contra o capitalismo, vai a passeatas e (absurdo!) propõe greves. Esquecem a proximidade entre a intolerância e o fascismo. Pensam na carreira e na maneira de se precaver contra as maiorias desqualificadas, que se amparam no igualitarismo que nivela todos num valor único, e por baixo, para cada voto. Essas as cismas do renegado enrustido.

         Um velho dirigente bolchevique afirmava que as revoluções, como a Esfinge, são devoradoras de homens. Pessoas também desmoronam. Tanto quanto muros. Principalmente se sustentam suas convicções na volátil solidez da religiosidade pseudo-revolucionária.

         Frente à ofensiva reacionária, explodem todas as formas possíveis de oportunismo. O individualismo, culto em voga, multiplica-se numa espécie de espírito de seita dos desgarrados. É a unidade espontânea dos náufragos das batalhas de classes, o paradoxal agregado de trânsito da predação desagregadora da razão.

Anúncios