Por Juliano Siqueira

                   Um dos males maiores da escalada ideológica do neoliberalismo se expressa, de forma ética e política, com a abdicação da cidadania, a recusa ao exercício de práticas sociais reivindicatórias, o mergulho na depressão cívica. Realmente, vivemos um tempo sombrio.

                   Isso, pela biografia de muitos dos atores do nihilismo contemporâneo e crescente, busca se revestir de uma invisível visão crítica, de uma estéril condenação das chamadas “velhas formas de pensar e de agir”, sem a correspondente apresentação do novo. É a racionalização extrema do conformismo, a maquiagem da reciclagem inconfessável, o ensaio envergonhado da cooptação passiva.

                 Esse novo culto do individualismo, apartado e alienado frente à sociedade e seus dramas, imposto pela enganosa luminosidade da fascinação consumista e suas inevitáveis e imperativas consequências, alimenta-se da ausência de referência críticas concretas, de alternativas históricas imediatas. Tudo a partir da demolição dos santuários da crença que se imaginava revolucionária e dialética, sendo oportunista e vã. Daí a miséria da imaginação que busca eternizar derrotas conjunturais.

                As dificuldade imensas postas como obstáculo unipolar ao progresso dos modos humanos de existência são, a um tempo, pretexto e argumento. Nesse sentido, concluem os partidários da inércia, como início da “utopia reinventada” e metafísica, que não há o que fazer. Ou melhor, vamos fazer o que é possível, em causa própria. O tempo é pouco, e a vida é breve. Juntemos as migalhas do grande banquete do deus-capital.

.’’.Mesmo que venham tingidos de sangue, com a marca da super-exploração das massas assalariadas. Além do mais, “esse discurso está superado”. É o que dizem para suavizar as culpas do pesadelo. Falam baixo, olham de lado e não dormem em paz. Em contrapartida, exultam como os reveses do movimento popular, como se fossem provas definitivas de que sua “ação moderna” é a correta. Esquecem a idade da cumplicidade e do cretinismo da colaboração. Conscientes ou não, perdem a noção do movimento histórico, do permanente e do transitório. Em suma, vêem no capitalismo o “fim da história”.

              As entidades representativas e suas instâncias deixam de ser vistas, pela radicalidade pseudodemocrática (e, na verdade, antidemocrática), como espaço político essencial de organização, mobilização, aglutinação, decisão e luta. O trabalho intelectual se idealiza e superestima, na clausura acadêmica, para justificar sua impotência no enfretamento do real, e produz novos dogmas e seitas que justificam o alheamento e a fuga, falta de compromisso e participação. Não são monges, nem vivem em mosteiros. Falsos profetas é o que são. E, como não são poetas, não passam de fingidores.

               Enquanto isso, “a injustiça passeia pelas ruas” e se aproxima do nosso bolso, da nossa casa, do pouco que conseguimos juntar. Seus salários, começam a descobrir assombrados e assustados, também podem ser arrochados, achatados, aviltados. E o fazem com o desespero ou a auto-anulação típicas do pequeno-burguês.

                 Muito pode ser feito. Somos, pela força e privilégio do conhecimento científico, formadores de opiniões nos locais de trabalho e moradia, nas universidades e nas escolas. Temos garantida audiência da sociedade civil organizada, dos sindicatos, dos trabalhadores. Respeitabilidade e competência profissional. Tal a configuração majoritária. À minoria renegada, aos arrivistas da apostasia, à senilidade ideológica, o local devido: o lixo da história.

                 Portanto, nada explica ou absolve a apatia que se apodera de nossas vontades e impede que caminhemos, lado a lado, com os que insistem, lutando, na marcha em direção ao futuro soberano e próspero, justo e democrático do país, na perspectiva maior da utopia histórica do socialismo.

                Goethe, no século das luzes, clamava aos homens: “…os anos da vida não foram em vão: está-me clara a conclusão final do ser humano- só é digno da vida e da liberdade quem todos os dias se lança ao combate por elas”.

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