Por Juliano Siqueira

                   O velho Engels ensinava, na sua generalidade revolucionariamente simples e objetiva, mas também cercada pelo silêncio da ignorância arrogante e dominante, nas academias e nas agências oficiais (que funcionam como balcões da cooptação e do servilismo bem pensante e comportado, conceitual e praticamente ordeiro, ou rebelde sem causa): “a linguagem é a realidade do pensamento”.

           Expressão importante de suas obras, em Augusto dos Anjos, Drummond e João Cabral, a poética está carregada das dificuldades e da solidão da luta com as palavras. Sequencialmente, desde a morte da ideia, passando pela inutilidade do combate, até a insônia do trabalho noturno, extraordinário e incerto (“a noite inteira, / o poeta em sua mesa, / tentando salvar da morte / os monstros germinados / no seu tinteiro”). Essas são manifestações do drama e da  glória  do labor intelectual honesto e produtivo. A prosa em Machado e Graciliano, igualmente, é bem uma prova disso.

            Mas, como questão e polêmica, vem ao caso buscar o significado e o sentido dos cassinos vocabulares em que vão sendo enquadradas áreas coletivas do pensamento formal-filosófico e científico. Como se o saber, ao sabor das circunstâncias e da irresponsabilidade intencional, se devesse transformar num jogo sem regras nem finalidades. No paroxismo da irracionalidade.

             Não é sério, não conduz a nada a sabedoria prefixal do pós e / ou do neo. Até porque, no fundo, é tudo pré. Importa o que vem depois. Esse é o conteúdo verdadeiro. Nenhuma tentativa de ocultamento vai muito longe. Nesse vale-tudo de feição nihilista, abre-se a porta ao obscurantismo, ficam enfraquecidas as defesas do conhecimento. A charlatinice trona-se ousada, se (re) inventa, nas ciências sociais e na historiografia, usando creme dental como juízo de valor e recorrendo à himenolatria inquisitorial- fascista para não admitir sequer a possibilidade da complacência. Tudo se resume na degradação do trabalho intelectual, na moda do “politicamente correto”. Tudo fica muito petulante e, mais ainda, ridículo.

O inconsciente dos labirintos, pântanos e castelos, na forma de cursos e seminários, é conservador, como o são as escolas neokantianas, cultivadas na Alemanha pós anexação capitalista, da atual catequese pseudo-universitária. Inclusive porque estão destinadas ao enfrentamento ideológico, a qualquer preço, mesmo com a utilização odiosa da mais refinada censura, da intolerância dos novos dogmas, se o resultado for positivo-ou seja, a imobilização ou afastamento do marxismo (e dos marxistas).

              Toda encenação se reduz à tarefa de emparedar e silenciar o pensamento revolucionário, crítico-transformador. Grande e insistente morto, incansável fantasma. Aquele que não dá tréguas aos cultores do ininteligível, dos cemitérios das idéias estéreis. Das palavras vãs, carentes de objetivação, impossível de ação.

              A onda pós-moderna (que diabo quer dizer isso?) faz parelha com o neoliberalismo e , quando se abre, aparência e essência, não tem nada de novo. Ao contrário, é um exercício de ressurreição do velho formalismo, sem pés nem telos, incapaz de usar as mãos e o trabalho. Oficina dos irracionais. Painel inconcluso do individualismo contemporâneo e sua suspeita impenetrabilidade.

             Quanto menor o conhecimento do real, melhor. Num só espaço, a retomada extemporânea da metafísica, com o concurso mórbido da alienada ilusão. É o colocar-se à vontade na não-senso, conviver conciliando com os contrários.

              Marx, otimista, chamava a atenção para fato de que “A humanidade não se propõe problemas que não possa resolver”. Alguns insistem em problematizar a visível solução.

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