Artigo por Juliano Siqueira

          Cinquenta anos são passados. Pelas mãos e o exemplo, pelas idéias e a firmeza da convicção de Dr. Vulpiano Cavalcanti, comecei minha difícil e limitada (por mim) vida de revolucionário e permanente aprendiz de comunista. Presenteou-me com um exemplar de A Dialética da Natureza, de F.Engels, e puxou o coro de saudação cantando as estrofes da “Internacional”. Enquanto existir, lembro e agradeço. Naquele instante, nascia um mundo e possibilidade de um novo homem.

                Dr. Vulpiano Cavalcanti – camarada Vup, como o tratávamos com respeito e carinho – nasceu em Fortaleza, Ceará, no dia 15 de março de 1911. Tornou-se potiguar após a cassação do registro do Partido Comunista do Brasil, no governo repressivo do execrável Eurico Dutra. Veio ao RN na condição de foragido. Foi morar na cidade de Mossoró. Tangido, refugiou-se em Areia Branca e Macau. Mas foi aqui, na Capital do Estado, que construiu sua gesta revolucionária.

                Desde jovem, nos colégios e faculdades de Medicina (BA e RJ), abraçou com determinação as causas populares. Na década de 30, fez parte da Aliança Nacional Libertadora (ANL) e, em seguida, filiou-se ao Partido Comunista rubro de sua existência de coragem e magnífica simplicidade. Outro jovem de sua marca, companheiro até a última hora, Isnard Teixeira, não mais vivo, combatente marxista-leninista, incentivou e descobriu em Vulpiano Cavalcanti de Araújo a vocação militante.

                Poucos sofreram, suportaram e derrotaram a tortura como o fez Vulpiano. Dezembro de 1952 é uma data de vergonha para o País. Ocorreu uma das muitas – e mais violenta – das prisões de Vulpiano. A Base Aérea de Natal foi palco de atos da mais extrema covardia, de um lado, e de imensurável heroísmo, de outro. Meses e meses de martírio. Resistência inquebrantável. São suas palavras, muito depois: “…Não sou velho, sou usado e maltratado; e como fui maltratado…”. Quebraram suas mãos. Dele, médico e cirurgião. Ao ser perguntado sobre a razão de sua força, disse: “ tinha muita convicção da verdade que defendia”.

               Os torturadores foram derrotados. Seu depoimento resumiu-se a uma afirmação de princípios: “Sou comunista e continuo com as mesmas idéias”. Mesmo assim, antes de assiná-lo, discutiu com Luís Maranhão que, com ele, dividia toda aquela ignomínia. E com bravura similar.

               Não é, portanto, de surpreender que Dom Nivaldo Monte, então Arcebispo de Natal, tomando conhecimento do seu sofrimento e da história de sua vida, tenha afirmado. “É mais cristão do que muito de nós”.

               Vulpiano Cavalcanti nos deixou em 19 de novembro de 1988. Contudo, na resistência e na luta dos comunistas, dos revolucionários, sempre estará presente.

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