Por Juliano Siqueira

É possível a qualquer cidadão brasileiro ter divergência com o jornalista Mino Carta. Faz parte do chamado jogo democrático. Contudo, é impossível não considerá-lo um homem privilegiadamente inteligente e bem-informado.

                Nas minhas andanças curiosas, hoje, quase solitárias, por entrevistas, programas e artigos políticos, dele li e ouvi, repetidas vezes, a afirmação de que a “elite brasileira é a mais perversa e vulgar, em todos os tempos e no mundo todo”. Na verdade, não só senti nenhum espanto nem vislumbrei qualquer espasmo de sectarismo. Concordamos.

                O quadro sócio-econômico, marcado pela exploração sem precedentes do mundo do trabalho e pela exclusão de classes e camadas subalternas, em níveis neocolônias, produto e produtor de uma trágica concentração de renda, com todas as suas potencialidades de minorização da posse da riqueza, constitui o espaço preferencial das manobras da perversidade elitista. O Estado privatizado e neoliberalmente minimizado, sob inspiração e imposição do neologismo imperialista da globalização, assume escancaradamente o papel de comitê executivo da defesa e ampliação dos interesse da insignificância quantitativa e moral dos grupos dominantes e, ao mesmo tempo e necessariamente, na linha anti-lógica da negação da história, de gendarme das multidões de oprimidos.

                Não satisfeitos com as benesses estatais, com o papel de sugadores da República, metamorfoseada em “res privata”, os representantes da elite (beneméritos espúrios com mandato, empresários do estelionato, barões do latifúndio genocida, banqueiros da agiotagem oficializada, intelectuais da falsidade ideológica e da chantagem cultural) sentem, como já o disse Engels, um prazer inusitado em corromper, corromperem-se, em fazer da corrupção, uma prática cotidiana e mecanismo natural do processo de acumulação.

Pouco importa, ao cultor e funcionário privado da corrupção, que da sua intenção e gestos tenha-se como resultado imediato e concreto o aumento da miséria das populações e a desgraça da Nação. O corrupto não tem pátria nem povo. Tem Miami e paraísos fiscais. Mas, é bom não esquecer, em tempo de eleições tem currais eleitorais.

               A vulgaridade da chamada elite brasileira poderia ser resumida aos símbolos monumentalizados da sua imbecilidade cultural. Por exemplo, nos pacotes do seu turismo colonizado, no lixo televisivo, na subliteratura dos coelhos, na agressão auditiva dos ritmos e CD’s de embromações mercantis “fora de época”, no apego senil aos estrangeirismos (língua, usos e costumes). A mídia eletrônica, com exceções pontuais, é uma excrescência. A imprensa apesar da resistência de militantes pensadores e lúcidos, está reduzida, na quase totalidade, ao panfletário oligárquico e, muitas vezes, faz da ignomínia ofício. Na verdade, ignorância e desinformação passeiam nos ares e nas ruas.

              A decadência ética e política da elite brasileira, sem representar seu enfraquecimento como força de coação, o que implica a possibilidade de sobrevida, não nos pode colocar diante de nenhuma teoria do “colapso da dominação”. Tal seria uma inaceitável concessão ao fatalismo. Contudo, frente à conjugação da perversidade com a vulgaridade, elementos ideologicamente geradores das formas contemporâneas do fascismo, impõe-se refletir e escolher frente ao dilema que a história nos propõe:

              Socialismo ou barbárie? Por mim, radical, renovada e revolucionariamente, vou insistir no humanismo da utopia.

 

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