Por Alexandre de Albuquerque Maranhão – Historiador

O período imediatamente anterior ao golpe de Estado de 1964 tinha como cenário a “guerra fria” e um intenso processo de mobilização social em favor de reformas estruturais na sociedade brasileira. Foi nessa realidade que Natal escolheu pela primeira vez, através do voto direto, o seu prefeito, Djalma Carvalho Maranhão, que nasceu em Natal no dia 27 de novembro de 1915. Ele foi responsável por colocar em prática uma educação libertadora; de resistência à dominação de classe, ao domínio estrangeiro e ao imperialismo.

Não se trata aqui, de revivermos um romantismo político, mas da necessidade imperiosa de lembrarmos-nos do caráter singular e o espírito público deste honrado e destemido administrador da cidade do Natal. Legítima liderança da esquerda política do Estado, Djalma Maranhão rompeu com as práticas oligárquicas tradicionais e conservadoras da época. Colocava-se numa posição de combate ao imperialismo, defensor da revolução cubana e contrário aos recursos financeiros norte americano da Aliança Para o Progresso, que tinham a finalidade de enfraquecer governos democrático-populares e “derrotar a ameaça comunista”.

De aguçada sensibilidade social e democrática era avesso ao clientelismo e fisiologismo. As transformações sociais estavam na pauta cotidiana do governo municipal, que fez da Educação a meta número um de sua administração.

Defendia o lema do líder cubano José Julián Martí Pérez, “Ser culto para ser livre”. Nesse período a organização cultural do município de Natal foi exemplo concreto das inversões de prioridades: o povo era participante ativo e não somente assistia como mero espectador. Um governo de vanguarda e de mobilização social até hoje nunca visto em terras potiguares e que esteve desvinculado do polo dominante da sociedade e afinado com a população mais carente da cidade.

Aplicou um método próprio de alfabetização, cuja cartilha destacava nas suas lições as condições de vida e trabalho do povo pobre e humilde e, princípios de solidariedade, fraternidade, justiça social e democracia. Destacamos duas delas: “O verdadeiro líder defende os direitos do povo” e “Somente um Congresso nacionalista, isto é, Câmara e Senado com homens interessados no bem estar do povo, poderá votar reformas básicas, garantindo o progresso da nação”. Um marco no processo educacional e de cidadania deflagrado em Natal, que superou padrões conservadores e intelectualistas. Era a libertação popular através da educação e cultura. 

É nesse ambiente de conscientização que Natal vivia e dos movimentos de reivindicação popular por reformas de base em todo território nacional, que se instaurou em 31 de março de 1964, um regime político excessivamente autoritário e repressor. A burguesia nacional sentindo-se ameaçada e temendo perder o controle do processo reformista em curso, com o apoio do governo dos Estados Unidos precipitou o rompimento do chamado “pacto populista” do presidente João Goulart.

A repressão se abateu sobre aqueles que implementaram e defendiam a educação popular. Estava proibido alfabetizar homens e mulheres simples do povo, impedindo o acesso dessas camadas à cultura letrada. A censura fez destruir livros e bibliotecas: não era mais permitida a democratização do conhecimento. É pertinente lembrar as palavras ditas pelo coronel Darcy Lázaro, comandante de uma das invasões à Universidade de Brasília (UNB). Para ele, “Se esta história de cultura vai nos atrapalhar a endireitar o Brasil vamos acabar com a cultura durante 30 anos”.

Em decorrência do golpe militar de 1964, Djalma Maranhão foi deposto do cargo de prefeito em 02 de abril daquele ano e levado preso para o 16º RI do Exército. O contra-almirante Tertius Cesar Pires de Lima Rebello foi empossado em 06 de abril como chefe do executivo municipal. A partir de então, teve início a dramática destruição de um trabalho valoroso no campo da educação e cultura popular em Natal. A ira das forças golpistas acabou com a Campanha De Pé no Chão Também se Aprende a Ler: destruíram suas escolas e bibliotecas, prenderam os seus líderes e educadores. Muitos livros foram apreendidos e expostos em praça pública como material subversivo. Era o declínio de Natal como cidade cultural. A ordem era esquecer tudo que lembrasse a figura do prefeito Djalma Maranhão.

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