Não existem blocos políticos plenamente homogêneos, íntegros, ausentes de contradições. Tal afirmação pode, como demonstra a história, ser, também, cabível na avaliação das formações político-partidárias.

Claro que existem contradições e contradições. Umas têm caráter fundamental, outras secundário. Mas, mais ou menos agudas, são contradições. O nível de profundidade está, invariavelmente, na dependência do processo histórico, do grau alcançado pela luta de classes, pela correlação das forças em disputa.

Em 1965, registra-se, na euforia fascistizante do golpe militar, engatinhado em sua sanha repressiva-assassina, o dobre de finados dos partidos políticos, com vida legal, existentes no Brasil. O Partido Comunista tinha sido ilegalizado em 1947. Nos governos Juscelino e Jango, principalmente, os comunistas lutavam pelo registro do seu Partido, no âmbito do Judiciário eleitoral.

O Ato Institucional que impôs o ‘bipartidarismo’, através da Aliança Renovadora Nacional (Arena) e do Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Era-lhes destinado o ‘papel’ de ser uma decidida situação e, como ‘benevolência ditatorial’, uma aceitável ‘oposição’.

Este simulacro de bipartidarismo, varreu da cena política brasileira as 12 (doze) siglas figurantes, desde a ‘redemocratização’ de 1945: PTB, PSB, UDN, PDC, PTN, PSB, PST, PSP, PRT, PRP, PL e PR.

No Rio Grande do Norte (RN), à exceção do PL (quase, exclusivamente, gaúcho) todas estavam presentes.

Como e quem protagonizou o ‘bipartidarismo’ potiguar?

Começando pelos mais fracos, o MDB constitui-se com “sobreviventes” (não cassados), até porque não tinham mandatos, com raras exceções (Odilon Ribeiro Coutinho – Dep. Federal e Érico de Sousa – Vereador, por exemplo), socialistas (PSB) e trabalhistas (PTB e PTN).

Não é objeto deste texto circunstanciar o curso do MDB, seu crescimento e “desobediência política”, mormente, na sequência da filiação de muitos comunistas, quase todos oriundos da juventude, do ressuscitado movimento estudantil.

E do lado mais forte? Bem, na Arena, agrupou-se toda fauna oligárquica, a tradicional e a nascente. Mariz-Maias, Alves e Rosados, uniram-se numa ‘santa aliança’ e, nas eleições de 1966, todos juntos, massacraram o MDB.

Elegeram o Senador, Duarte Filho (aluizista) e o Suplente, Luis de Barros (dinartista); todos os deputados federais, 07(sete); 37(trinta e sete) dos 40(quarenta) deputados estaduais. Os 03 (três) eleitos pelo MDB foram, por ordem de votação, Geraldo Queiroz, Pedro Lucena e Roberto Furtado.

Remetendo o leitor ao início do artigo, indago: como conviviam, num mesmo partido(?), oligarcas desafetos, interesses em choque, disputas paroquiais? A resposta é simples e objetiva: o traço de união entre eles, que foram golpistas de ato e de fato, era o apoio servil e, em certos casos traiçoeiro e covarde, à ditadura militar.

Contudo, as diferenças e desavenças insistiam em manifestar-se. Daí, no RN, surgiram 02 (duas) Arenas: uma, aluizista – a verde; outra, dinartista – a vermelha (!?). Em alguns municípios, as cores eram substituídas por aves – araras, bacuraus…

O anti-Janguismo, a resistência às Reformas de Base, a fobia anticomunista, eixo doutrinário comum, agradava aos senhores da caserna, que se antoproclamavam ‘redentores da pátria’, colava os paus de sua jangada.

A mancebia resistiu/durou 04(anos). Com o Ato Institucional nº5 (AI–5) nas mãos, Dinarte Mariz armou seu golpe particular contra os Alves.

Golpistas, por puro revanchismo eleitoral, deduraram golpistas; arenistas cassaram arenistas.

Gente que fez blitz midiática contra o Prefeito Djalma Maranhão, bem antes do golpe, como o líder do governo de Aluizio Alves e o seu chefe da Casa Civil ( e irmão), escrevendo (na Tribuna do Norte) e falando (na Rádio Cabugi), com um, insistentemente, repetido insulto (“Djalma Maranhão, prefeito melancia, verde por fora, vermelho por dentro”), acabou sendo alvejada pelo AI–5.

Foi uma tremenda ingratidão… Eles que fizeram seus próprios Inquéritos Policiais-Militares (IPMs), contribuíram na cassação dos mandatos comunistas, demitiram ‘subversivos’, convocaram agentes da CIA, organizaram festas, manifestações e banquetes, em homenagem aos “briosos chefes militares das nossas gloriosas forças armadas”, começavam a sofrer represálias, perder mandatos, conhecer, por dentro, prisões.

Ingênuos não eram. Foram formados na escola do lacerdismo. Portanto, até por convicção, sabiam o que é ser direita, conheciam os objetivos do golpe, não lhes era estranha a voracidade do fascismo.

Alguns anos depois, reuniram-se em torno da mesa biônica da ‘paz pública’. Isso é outra, longa e interessante, estória. E, hoje, erguem um palanque, dito de salvação do RN, que não é semelhante, é igual, à finada Arena das araras e bacuraus.

 

Por Juliano Siqueira – 31/03/2014

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