O golpe militar de 1964, que completou 50 anos na última segunda-feira (31), foi um dos capítulos mais tristes da história do Brasil. Os 21 anos do regime foram pontuados pelo desrespeito dos direitos constitucionais, censura, perseguição política e repressão. Enquanto nos vizinhos latino-americanos vários processos foram realizados para punir os responsáveis pelos regimes ditatoriais, no Brasil, cinco décadas após a tomada do poder pelos militares, as vítimas ainda esperam justiça.

Abaixo, segue um poema de Juliano Siqueira, professor da UFRN e Presidente do PT de Natal, que foi preso político, durante o regime ditatorial no Brasil, onde ele relembra e faz uma homenagem aos que lutaram pela liberdade no Brasil.

A data também foi lembrada pelo vereador Fernando Lucena, que realizou uma Sessão Solene na Câmara Municipal de Natal, em repúdio aos 50 anos do golpe.

 

Canto do Cárcere, num Último Adeus

Aos camaradas e amigos, companheiros e companheiras, mortos e desaparecidos

 

Onde ficou o Rio de Janeiro

Que Chico e Noel cantaram,

Embora não chorando por você, Brasil.

Não posso esquecer de centenas

Que cantaram, amaram, sonharam,

Olhando para o instante das últimas despedidas,

Do último adeus.

 

Como poderás inventar uma paz

Que concorda sem se lembrar.

Onde encontrarás a memória perdida,

Entre o susto e um pobre começar,

Para encontrar risada, sofrendo,

Mirando, tão terrível, o último adeus.

 

Querida, o céu não pode ajudar

Para apagar o mal da verdade,

E, embora minha terra esteja longe,

Sua dor me bate num tom marcial

E ocorre-me pensar que eu não posso chorar.

 

Porque chorar só leva a lamentar

E à calma nostalgia por aqueles que não são, nem estão.

E com o tempo a memória torna tudo morto

E, então, você vai perguntar:

Onde estão os culpados letais,

Olhando para o fantasma do último adeus.

 

Quero juntar minha canção ao seu canto,

Em uma história que ainda esta por vir,

Onde aquele choro cubra-se

Com seu manto de ferro e, em seguida, lembre-se

Daqueles que amaram, cantaram, sonharam,

Tendo vergonha de assistir o fantasma do último adeus.

 

Ai Brasil, salva a minha fé

Que canta com sua terra e sua voz.

Eu não posso ajudar, mas me levantar

Para o meu tempo,

Com sua música, com o meu amor,

Com a esperança, a força, a resistência,

Que vivo em ti.

 

E se outro tempo, sedento de ódio,

Outra vez, volta a invadir o amor,

Eu, que amo a retomada, anuncio:

Nunca te esqueças de que existe no Caribe,

E espero que você encontre,

Um verde, uma justiça, a esperar

Aqueles que amaram, cantaram, sonharam,

Olhando para a beleza das últimas despedidas.

 

Juliano Siqueira – 1973

 

*Com informações do Portal RFI

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