Por Alexandre de Albuquerque Maranhão – Historiador

Introduziu uma política educacional plural, que não excluía, que respeitava o tempo de aprendizado de cada indivíduo. O ponto de partida dessa empreitada era educar para superar o subdesenvolvimento, educar para libertar o homem brasileiro e educar para modificar estruturas. Preparar um amanhã novo para uma sociedade renovada através do poder transformador da educação e cultura era o universo de Djalma Maranhão, que nasceu em Natal no dia 27 de novembro de 1915.

Sem recursos financeiros para a construção de prédios escolares, a prefeitura apelou para a população: onde fosse cedida, gratuitamente, sem cobrança de aluguel, uma sala, seria instalada uma “Escolinha”. Uma sala de aula, na época, construída dentro das especificações do Ministério da Educação, ficava em torno de Cr$ 1.300.000,00 (um milhão e trezentos mil cruzeiros). Por sua vez, uma sala de aula dos “Acampamentos Escolares” da prefeitura, que eram constituídos de galpões de 30 x 8 metros, com estrutura de madeira, coberto de palha de coqueiro e chão de barro batido, ficava exatamente por Cr$ 23.750,00 (vinte e três mil e setecentos e cinquenta cruzeiros).

A escola sem paredes, sem portas e janelas, tornou-se polêmica. Os “educadores conservadores e tradicionalistas” consideravam um absurdo reunir quatro classes de aula em um mesmo galpão, divididos, unicamente, por dois quadros: um negro e outro mural. No entanto, numa região de clima quente, como é a cidade do Natal, a escola sem paredes não era somente uma solução econômica na sua construção, como também, tornava-se agradável, evitando o calor no ambiente escolar.

Criado pela Lei nº 1301 de 27 de dezembro de 1962, o Centro de Formação de Professores, preenchia todos os requisitos pedagógicos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Tinha como objetivos formar professores para atender às necessidades da Campanha “De Pé no Chão Também se Aprende a Ler”; realizar a coordenação técnico-pedagógica através de um processo democrático de discussão e participação dos agentes envolvidos no empreendimento educacional e manter uma Escola de Demonstração que servisse de laboratório para a Campanha.

Nos Cursos de Preparação Pedagógica, além da parte propriamente técnica, incluía-se outra, referente ao estudo dos problemas e da realidade brasileira, bem como discussões sobre o conteúdo da Cartilha ou Livro de Leitura de Adultos. Os temas abordados eram dos mais variados, como: “Processo Espoliativo do Imperialismo, Cultura Brasileira e Alienação, Cultura Popular, Análise e Crítica da Constituição Brasileira, Reformas de Base, Aspectos da Economia Brasileira, O Professor Primário em face da Realidade Brasileira e Análise da Cartilha da Campanha”.

A recreação ocupava papel de destaque nos Acampamentos Escolares. Era feita regularmente com os alunos e de forma ocasional com os pais de alunos, através de círculos de pais e professores. Tinha por base as danças, cantos, jogos, brincadeiras e folguedos populares. Havia o propósito de divertir e educar, para estimular a criança pelo interesse pela escola e evitar a evasão escolar.

Em sua última fase, antes do golpe militar, a Campanha de Pé no Chão Também se Aprende a Ler começou a se expandir para o interior do Estado. O executivo municipal deu início no primeiro trimestre de 1964 a um Plano Piloto de Assistência Pedagógica nos municípios de Afonso Bezerra, Ipanguaçu, Pendências, Pedro Avelino, Macau, São Tomé, Barcelona, São Paulo do Potengi e Rui Barbosa.

Na noite de 31 de março de 1964, os quartéis em Natal encontravam-se de prontidão. Na manhã de 1º de abril, os principais pontos da cidade, foram ocupados pelas Forças Armadas e os jornais já estampavam as primeiras notas oficiais sobre o golpe militar. Por outro lado, a prefeitura municipal de Natal divulgava uma nota onde tornava público que a “posição do prefeito Djalma Maranhão é de defesa da legalidade democrática. A mesma posição assumida quando da posse do presidente João Goulart…”. Por isso, “ao lado das forças populares e democráticas, conclama o povo para que se mantenham em constante estado de alerta, nos seus sindicatos, diretórios, órgãos de classe, sociedades de bairros, nas ruas e praças públicas, na defesa intransigente da legalidade, que possibilitará a libertação do Povo e do País do imperialismo e do latifúndio, a concretização das reformas de Base e da construção do amanhã mais justo e mais feliz do Brasil”.

No entanto, o “Quartel General da Legalidade e da Resistência”, instituído na prefeitura do Natal não funcionou. No dia 2 de abril, por volta das 17 horas patrulhas do Exército invadiram a sede do executivo municipal e levaram presos o prefeito Djalma Maranhão e o vice-prefeito Luiz Gonzaga dos Santos. As pessoas responsáveis pela direção do Movimento de Alfabetização também foram presas e ao saírem da prisão não encontravam mais nada: livros, bibliotecas e galpões foram destruídos.

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Djalma Maranhão

 

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