Por Alexandre de Albuquerque Maranhão

Historiador

Personalidade marcante que sempre defendeu o respeito às liberdades civis, os direitos humanos e as garantias fundamentais. Em toda a sua vida lutou por uma organização política e social que poderia ser adotada para a proteção da coletividade, das liberdades individuais e de um Estado Democrático de Direito pleno com ênfase na solidariedade. Foi um dos maiores símbolos da resistência ao regime militar, instalado no Brasil em 1964. É assim que podemos definir a figura histórica de Luiz Ignácio Maranhão Filho, nascido em Natal, no dia 25 de janeiro de 1921.

Na sua incansável busca por uma sociedade justa, fraterna e solidária esse militante comunista, trabalhou durante toda a sua vida na possibilidade da ação conjunta com os cristãos. Era dotado de grande estatura política e grandeza humana. Respeitava como poucos as diferenças entre os indivíduos e possuía rara capacidade de saber ouvir as pessoas.

Separado da mulher Odette Maranhão, da família e dos amigos pela clandestinidade no Rio de Janeiro ou São Paulo, onde ficava em casa de amigos ou morando em apartamentos provisórios, alugados em nome de outras pessoas, Luiz Maranhão jamais pensou em largar a vida de sacrifícios e de tormentos. Estava convencido de que era preciso transformar a sociedade e as relações humanas.

Era um ser humano que se envolvia com todas as pessoas de credos e posições políticas e ideológicas diversas. Apostava sempre no diálogo, na compreensão e no entendimento: nenhuma dor alheia, nenhuma alegria o deixava indiferente. Foi o dirigente comunista que mais compreendia a necessidade de um trabalho de conscientização popular junto com a Igreja Católica. Costumava dizer: “… uma coisa sou eu chegar perto do caboclo explorado e dizer: a terra deve ser de todos. Outra coisa é o padre chegar e dizer: Deus deixou a terra como bem comum. Eles acreditam piamente no padre, como já acreditavam seus pais e seus avós”. E finalizava: “precisamos, todos os socialistas, trabalhar ao lado dos cristãos”.

Mas a cada dia tornava-se mais dramático prosseguir com o trabalho político. A intolerância e a repressão militar tornou-se mais enérgica com a promulgação da Lei de Segurança Nacional, em setembro de 1969. Nas restritas reuniões do Partido Comunista Brasileiro (PCB), prevalecia a decisão de dar continuidade ao projeto de tentar, de todas as formas, atuar nos sindicatos, nos partidos políticos e junto à Igreja Católica. Para os comunistas, era imprescindível derrotar a ditadura militar. E isso só seria possível através da sociedade organizada.

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LUIZ IGNÁCIO MARANHÃO FILHO

 

Luiz Maranhão intensificou as exposições para os estudantes do PCB sobre a importância da Igreja Católica, utilizando os textos do Concílio Vaticano II e as encíclicas Mater et Magistra, Pacem in Terris e Populorum Progressio. As forças da repressão perceberam essa possível caminhada entre comunistas e cristãos. Em junho de 1970, no Rio de Janeiro, policiais do 1º Distrito Naval fizeram inúmeras prisões, submetendo os presos à tortura e espancamentos, sob a alegação de que praticavam atividades “anti-revolucionárias”. A partir de então, um processo dessa instituição naval, desdobrou-se em cinco Inquéritos Policial Militar (IPM), durante 14 meses, que procurava colher informações sobre as atividades de Luiz Maranhão na área da Igreja Católica. Aos presos interrogados a pergunta que não podia faltar: “o que Luiz Maranhão falava sobre a Igreja Católica?”. As respostas, quando positivas, tinham em comum a afirmação de que Luiz Maranhão falava sobre a importância da Igreja e da necessidade de aproximação com esta instituição nas lutas pelas liberdades democráticas.

O golpe militar de 1964 foi uma drástica interrupção de um processo social de crescimento da democracia brasileira, bem como de ampliação da sociedade como um todo. Os argumentos dos defensores do golpe são injustificáveis. Dizer que os militares atuaram para colocar fim à crise econômica e política que dividia o país naquela época é um contra- senso. Na verdade, para dar continuidade à democracia, era necessário ter mais democracia e não um golpe de Estado.

Em novembro de 1973, o Comitê Central do PCB reuniu-se, com inúmeras dificuldades, para avaliar a segurança de seus dirigentes. Discutiu-se a saída do País ou a permanência nele. Luiz Maranhão preferiu ficar. Mudou-se do Rio para São Paulo. A esposa Odette Maranhão fez-lhe um apelo para que ele deixasse o país. Ouviu dele a resposta: “não há perigo. Essa é a minha vida”.

Entre 27 de março e 3 de abril de 1974, Luiz Maranhão fora sequestrado  e preso em São Paulo pelas forças da repressão. Começava o suplício da esposa Odette: viagens ao Rio, São Paulo e Brasília na busca por informações do marido. Quartéis das Forças Aramadas e autoridades políticas do regime eram os destinos dessa mulher que sofreu as mais diversas humilhações e constrangimentos. Odette continuava sua luta contra os fantasmas. “Ela, a viúva do talvez ou do quem sabe”, como dizia o escritor e dirigente do PCB pernambucano Paulo Cavalcanti. Dos desaparecidos não se conseguia saber notícia alguma. As famílias jamais puderam sepultar seus mortos.

Diante de tanta dor, restou apenas a Odette Maranhão as marcas do amor deixadas em seu espírito e em seu corpo. As lembranças e a última mensagem enviada pelo seu marido no dia do aniversário dela, em 10 de fevereiro de 1973, um ano antes do desaparecimento dele ficaram gravadas na sua mente: “será sempre maio para o nosso amor”.

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