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Encontrei no domingo pela manhã um conhecido com quem havia trabalhado na área de orçamento na Câmara dos Deputados, em Brasília, na década de 90. Depois dos cumprimentos, foi logo dizendo: “Situação feia que está no Brasil, é uma pena, acho que vou para Espanha!” Devo ter olhado com uma cara estarrecida, porque logo ele emendou: “Sim, Espanha! Tenho cidadania e lá eles já tiraram o nariz pra fora.”

Minha reação foi automática: “Aqui nunca estivemos com o nariz tampado, aliás, sempre respiramos com relativa facilidade diante de uma das maiores crises que o mundo viveu! Do que você está falando?!” – “Do futuro”, disse ele. “Do futuro dos meus filhos, um é engenheiro e outro arquiteto”.

Desconheço completamente que estejamos com uma crise de emprego na área de engenharia e arquitetura. Aliás, nem de perto temos ou teremos o nível de desemprego da Espanha, que atingiu 20% (entre os jovens, quase 40%). Temos setores com maior desemprego, mas temos rede de proteção social, continuamos com salário mínimo, com poder de compra e programas de governo que auxiliam a economia.

“É, mas a Espanha tem infraestrutura, o Brasil não tem e não conseguirá ter, porque não tem dinheiro para investimento”, insistiu ele.

Apesar de ser servidor público, trabalhar com orçamento, apresenta grande desinformação. Temos atualmente cinco mil quilômetros de estradas sendo duplicadas, resultado das concessões feitas em 2013; quarenta terminais portuários sendo construídos, com investimentos que ultrapassam R$ 11 bilhões! Seis aeroportos concedidos com obras sendo realizadas. Aliás, nossos aeroportos continuam cheios!

Recentemente, foi lançado o Plano de Investimentos em Logística II. Mais de 300 empresas se habilitaram para fazer estudos de concessão de rodovias e 90 para concessão de quatro novos aeroportos. Os filhos de meu conhecido com certeza não ficarão desempregados.

Mas ele não está sozinho nessa retórica pessimista, de lamentar contra o país e apostar no pior. Nossa imprensa, pelo menos parte considerável dela, está nesta linha já faz tempo. Só dados negativos têm espaço. Quem ouve, assiste e lê a mídia sente-se na pior economia do planeta, na crise mais perversa, na situação sem saída. Quando são obrigados a dar dados positivos da economia, e não são poucos, vêm com o bordão “apesar da crise…” Lembram do “imagine na copa”? Pois é, um leitor do meu face lembrou. Resolvi homenageá-lo com o título deste artigo.

É o “apesar da crise” que usam para dizer que a produção e a exportação de frango batem recordes; que a agricultura está com boa produtividade, o preço da saca de soja está bom e continuamos vendendo bem; que há demanda por carne suína brasileira e abrimos novos mercados para a carne bovina; que continuamos com crédito barato para financiar a safra 2015/2016, seja para a agricultura familiar ou empresarial. Que registramos crescimento na abertura de empresas no país; que a produção audiovisual para cinema ou TV do país teve enorme crescimento nos últimos quatro anos. Que os brasileiros continuam viajando. Que nunca vendemos tantos telefones celulares como agora.

Não nego que estamos com dificuldades na economia, assim como muitos outros países ou que tenhamos exagerado nos gastos públicos para fazer frente à crise internacional. Mas dizer que estamos em uma crise sem precedentes, isso eu não posso concordar, até porque já vivemos crises no país com profundo desemprego e total falta de alternativas.

Termino com a frase de uma tia, pessoa simples e trabalhadora, que foi ao Parque de Diversão Beto Carrero nesta semana: “Como está cheio isso! Filas que não acabam mais. Onde está a crise que tanto falam…?”

(Artigo inicialmente publicado no Blog do Esmael, no dia 27 de julho de 2015)

Gleisi Hoffmann é senadora da República pelo Paraná. Foi ministra-chefe da Casa Civil e diretora financeira da Itaipu Binacional

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